Existe uma crueldade administrativa que se tornou tão comum no Brasil que quase ninguém mais se espanta com ela. Um trabalhador adoece gravemente, perde a capacidade de trabalhar, solicita o auxílio por incapacidade ao INSS — e recebe uma negativa. Às vezes em minutos, por sistema. Às vezes após uma perícia de sete minutos.
Depois vem o recurso. E a espera.
Não estamos falando de fraudes identificadas. Estamos falando de negativas que incluem casos posteriormente revertidos na via administrativa ou judicial, o que, por si só, já revela que o critério de concessão está calibrado para negar primeiro e corrigir depois.
O problema é o que acontece nesse intervalo.
O recurso administrativo no INSS pode levar de seis meses a mais de um ano para ser julgado. Quando o segurado parte para a via judicial, o que ocorre com frequência crescente, o tempo pode dobrar. Nesse ínterim, o trabalhador está sem renda, sem vínculo empregatício ativo, muitas vezes sem condições de buscar emprego por causa da própria doença que originou o pedido. O limbo é total.
Não é exagero dizer que o modelo atual transfere o ônus da prova de maneira desproporcional para quem menos tem condições de suportá-lo.
A perícia médica opera sob pressão de produtividade
A perícia médica do INSS, estruturalmente, opera sob pressão de produtividade. Há metas implícitas de atendimento por turno. O perito tem acesso a laudos, mas o tempo de consulta raramente permite avaliar condições crônicas, flutuantes ou psiquiátricas com a profundidade necessária. Doenças como depressão severa, fibromialgia, lúpus e transtornos de personalidade, que afetam a capacidade funcional sem ser visíveis ao exame físico convencional, são sistematicamente subavaliadas nesse formato.
O resultado: o indeferimento não é exceção. É parte do fluxo esperado.
Isso cria um mercado paralelo. O trabalhador que tem dinheiro contrata advogado e entra com ação. O que não tem depende da Defensoria Pública, quando ela existe, quando tem capacidade, quando o prazo não foi perdido. A desigualdade no acesso ao próprio direito é flagrante.
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Vale lembrar que o teto do INSS foi reajustado recentemente para R$ 8.537, um número que aparece como notícia positiva, e é, de certo modo. Mas um teto que nunca será acessado por quem está preso num recurso sem data para ser julgado.
Enquanto isso, o debate político sobre trabalho no país discute jornada, escala e reforma trabalhista. Questões legítimas. Mas há uma lacuna enorme: quase ninguém está discutindo o que acontece com o trabalhador quando ele adoece e o sistema que deveria ampará-lo simplesmente não funciona.
O que precisaria mudar não é segredo
Mais peritos, com mais tempo por consulta. Critérios técnicos que incorporem a literatura médica atual sobre incapacidade funcional, não apenas diagnóstico. Prazo legal para julgamento de recursos, não uma promessa, mas uma obrigação com consequência. E revisão do modelo de avaliação para doenças que exigem observação longitudinal, não um único exame pontual.
Nada disso é impossível. Muito já foi proposto, estudado e discutido em audiências públicas. O que falta não é diagnóstico. É vontade política de resolver um problema que afeta gente sem muito poder de pressão.
O trabalhador doente não faz greve. Não para a produção. Não gera notícia quando espera.
E talvez seja exatamente isso que explica por que o sistema continua funcionando assim: porque, para quem decide, ele está funcionando bem o suficiente.
A pergunta que fica não é técnica. É moral: até quando vamos aceitar que a proteção social brasileira trate o sofrimento como etapa de processo?



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