A fila caiu, mas o relógio de quem espera não para

Dois vírgula seis milhões de pessoas. É o número que o governo apresentou como conquista: a fila do INSS, que já chegou a mais de três milhões de requerimentos represados, recuou. O Ministério da Previdência comemorou, lançou um plano de 90 dias e prometeu acelerar a análise dos pedidos atrasados. A notícia é boa. Mas ela não chega sozinha.

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Do outro lado dessa estatística há um aposentado que parou de trabalhar esperando o benefício que nunca veio. Uma pessoa com deficiência que pediu o BPC meses atrás e ainda não tem resposta. Um viúvo que tenta transformar perda em pensão por morte e aguarda numa fila que o Estado chama de dado, mas que, para ele, é a conta do mês.

O problema da fila do INSS não é novo, e sua causa tampouco é misteriosa. Trata-se de uma combinação conhecida: quadro de servidores defasado, sistema de análise que ainda carrega gargalos estruturais e uma demanda que só cresce à medida que a população envelhece e que a formalização do mercado de trabalho avança em ritmo lento. Nenhum plano emergencial de 90 dias resolve o que décadas de subinvestimento produziram.

Isso não significa que o esforço seja inútil. Significa que celebrar a redução da fila sem explicar por que ela cresceu tanto é contar metade da história.

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Vale lembrar que, enquanto um segurado espera, ele não recebe. E não receber não é apenas inconveniente: para quem depende do INSS como única fonte de renda, cada mês sem benefício é uma dívida a mais, uma refeição a menos, uma dignidade adiada. O Estado continua sendo devedor nesses casos, mas o ônus imediato recai sobre o cidadão. Pelo canal oficial do Ministério da Previdência Social, é possível acompanhar o andamento de requerimentos e verificar prazos vigentes.

Há ainda a questão da fraude, que apareceu com força nas últimas semanas. Descontos indevidos nos benefícios de aposentados e pensionistas, prorrogação do prazo para contestação, devolução prometida pelos canais oficiais. Tudo isso ao mesmo tempo em que o governo tenta mostrar que a máquina está funcionando melhor. São sinais contraditórios que precisam ser lidos juntos, não em separado.

O INSS é, talvez, a instituição que mais concentra a relação do Estado brasileiro com o cidadão comum. É por ele que passa a aposentadoria, o auxílio-doença, a pensão, o BPC. Quando ele trava, não trava para um segmento específico: trava para quem mais precisa de resposta rápida.

A fila caindo é um passo. Mas a pergunta que fica é outra: qual é o plano para que ela não volte a crescer depois que os 90 dias passarem?

José Carlos Sanchez Jr.

José Carlos Sanchez Jr.

Jornalista dedicado a explicar decisões do Estado, traduzir políticas públicas e orientar cidadãos sobre como acessar seus direitos e benefícios sociais.

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