Toda semana aparece uma nova discussão sobre direitos do trabalhador brasileiro. A PEC das 40 horas, a jornada 6×1, o teto do INSS subindo para R$ 8.537. O país debate, vota, regulamenta.
Mas tem uma conversa que quase nunca aparece nesse mesmo nível de urgência: a do trabalhador que recebe, paga conta e, mesmo assim, termina o mês no vermelho — não por descuido, mas porque ninguém jamais explicou a ele como o dinheiro realmente funciona.
Esse silêncio tem um custo altíssimo.
O Brasil encerrou 2025 com mais de 72 milhões de adultos inadimplentes, segundo o Serasa. É quase um terço da população economicamente ativa. Quando um número chega a esse tamanho, ele deixa de ser problema individual e vira questão estrutural. Tratar cada um desses 72 milhões como alguém que “não soube se controlar” é, no mínimo, intelectualmente desonesto.
O rotativo do cartão de crédito cobra, em média, juros acima de 400% ao ano. Quatrocentos por cento. Esse número está disponível nos contratos — em letras miúdas, em linguagem técnica, em páginas que ninguém lê porque ninguém ensinou a lê-las.
O banco, por outro lado, oferece o limite com facilidade. Com notificação no celular. Com cashback. Com ponto. Com sorrisinho.
Não existe simetria de informação nessa relação. E fingir que existe é conveniente para quem lucra com a assimetria.
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O que a escola nunca ensinou
A escola pública brasileira ainda não ensina educação financeira de forma consistente e transversal. O currículo avança em alguns estados, recua em outros e depende de projeto político, de verba e da formação do professor. Enquanto isso, o filho da família de alta renda aprende sobre investimentos em casa, com os pais, com acesso a conteúdo de qualidade desde cedo.
O filho da família de baixa renda aprende que “dívida é coisa ruim” — sem entender por quê, sem saber diferenciar dívida produtiva de dívida predatória, sem conhecer o que é portabilidade, renegociação, Cadastro Positivo, nada.
E depois, quando esse jovem adulto usa o cheque especial para fechar o mês, é chamado de irresponsável.
Programas como o Pé-de-Meia — que incentiva o estudante de escola pública a permanecer matriculado com uma poupança de contrapartida — são passos importantes. Mas guardar dinheiro sem entender dinheiro é como aprender a andar de bicicleta em linha reta sem saber frear.
A informação financeira básica precisa vir junto. Não depois.
Sair da dívida exige mapa, não só força de vontade
Sair da dívida exige sim disciplina. Ninguém vai negar isso. Mas exige também acesso a informação clara sobre o que se deve e a quem. Exige conhecer os canais de renegociação — o Desenrola, o CadÚnico, os programas municipais. Exige entender que a portabilidade de crédito existe e pode reduzir juros. Exige saber que há direitos, que há limites legais, que há caminhos.
Força de vontade não substitui mapa. E mapa você só tem se alguém te ensinou a ler.
O problema não é o trabalhador endividado. O problema é um sistema que lucra com a ignorância financeira, oferece crédito sem letramento e depois cobra — literal e moralmente — por isso.
Política pública de educação financeira não é paternalismo. É reconhecer que o mercado financeiro é sofisticado, o cidadão foi deixado sem ferramentas e essa combinação produz exatamente o que estamos vendo: décadas de endividamento crônico passando de geração em geração.
Tratar dívida como falha de caráter é cômodo. É fácil. E é falso.
O que falta, na maior parte dos casos, não é vergonha. É o que nunca nos ensinaram.


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