educação financeira escolar
Foto: Marcello Casal JrAgência Brasil / Agência Brasil

Existe uma lacuna curiosa no que o Brasil decidiu ensinar às suas crianças.

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Durante anos, parte do currículo escolar reservou espaço para noções de cidadania, para a estrutura dos três poderes, para a diferença entre Estado e governo. Coisas importantes. Mas ninguém, em nenhuma dessas aulas, ensinou o estudante a entender por que uma dívida no rotativo do cartão pode triplicar em menos de um ano.

Isso não é acidente. É uma escolha — e vale a pena nomeá-la como tal.

Em 2010, o governo federal criou a Estratégia Nacional de Educação Financeira, a ENEF. O decreto existia, a comissão foi formada, o nome era bonito. O que não veio, com a mesma intensidade, foi a implementação nas salas de aula do país real — aquelas superlotadas, com professores sobrecarregados e sem formação específica no tema.

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Mais de quinze anos depois, o diagnóstico não mudou tanto. A maioria dos adultos brasileiros chega à vida financeira sem saber montar um orçamento funcional, sem entender a diferença entre uma dívida que constrói patrimônio e uma que apenas consome renda, e sem ter a menor intimidade com o conceito de juros compostos. Esse conceito que, quando a favor do investidor, é chamado de milagre e que, quando contra o devedor, é silenciosamente chamado de “normal”.

O discurso dominante atribui o endividamento crônico à falta de disciplina individual. É um argumento conveniente porque desloca a responsabilidade do sistema para a pessoa. Se você está no vermelho, é porque gastou além da conta. Se não tem reserva de emergência, é porque não teve força de vontade suficiente para poupar.

Mas disciplina se aprende. Assim como se aprende a ler, a operar frações, a interpretar um gráfico. Ninguém nasce sabendo planejar o orçamento doméstico e ninguém deveria ter que descobrir isso sozinho, aos 30 anos, depois de acumular dívidas que nenhuma escola jamais explicou como evitar.

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O mercado, por sua vez, preencheu esse vácuo com eficiência. Crédito fácil, aprovação imediata, parcelas que cabem no bolso. A publicidade financeira é sofisticada exatamente onde a educação pública falhou: ela fala a língua de quem não foi ensinado a fazer perguntas. Não explica a taxa efetiva anual. Não mostra o custo total do empréstimo. Mostra a parcela.

Não é necessário atribuir má-fé a cada instituição financeira para reconhecer que o modelo de negócios de boa parte do crédito ao consumidor depende estruturalmente do desconhecimento do tomador. Quem entende juros compostos toma decisões diferentes. E consumidores que tomam decisões diferentes são menos lucrativos para produtos de crédito de alto custo.

O Pé-de-Meia, programa do governo federal que paga um incentivo financeiro para estudantes do ensino médio permanecerem na escola, é um exemplo de política que reconhece a dimensão econômica da vida do jovem brasileiro. É válido. Mas transferir dinheiro sem transferir repertório financeiro é, no máximo, meio caminho.

O problema não é que os brasileiros sejam irresponsáveis com dinheiro. O problema é que o Estado prometeu uma política de educação financeira, não a entregou na escala necessária, e o mercado ocupou o espaço deixado vazio, não com pedagogia, mas com oferta de crédito.

Há uma pergunta que vale fazer diretamente: se um jovem sai do ensino médio sem saber calcular o custo real de um financiamento, de quem é a responsabilidade quando ele contrai uma dívida que não consegue pagar?

A resposta honesta desconforta porque divide a culpa de uma forma que o debate público raramente aceita.

Não é só dele.

José Carlos Sanchez Jr.

José Carlos Sanchez Jr.

Jornalista dedicado a explicar decisões do Estado, traduzir políticas públicas e orientar cidadãos sobre como acessar seus direitos e benefícios sociais.

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