A Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, aprovou financiamento para estruturar toda a cadeia produtiva da malva no Pará. Para milhares de famílias ribeirinhas que vivem da extração dessa fibra sem carteira assinada, sem maquinário adequado e sem acesso a mercados maiores, o projeto pode representar a primeira chance concreta de sair da invisibilidade econômica e acessar direitos trabalhistas que hoje simplesmente não chegam até elas.
Quem pode ser afetado
O impacto direto recai sobre famílias ribeirinhas extrativistas que cultivam e beneficiam a malva em áreas de várzea na Amazônia, especialmente no estado do Pará. Hoje, esse trabalho é feito de forma inteiramente manual e artesanal: as sementes são lançadas nos leitos dos rios quando as águas baixam, as plantas são cortadas, deixadas de molho por cerca de dez dias para amolecer e, depois, as fibras são retiradas da água e secas em varais improvisados. Não há maquinário, não há estrutura de armazenamento e, na maior parte dos casos, não há contrato formal de trabalho.
Por viverem nessa cadeia informal e de baixo valor agregado, esses trabalhadores ficam de fora de benefícios básicos garantidos pela CLT e pela legislação previdenciária, como FGTS, contribuição ao INSS (cujas alíquotas em 2026 variam de 7,5% a 14%), acesso a seguro-desemprego e aposentadoria rural em condições regulares. O projeto financiado pela Finep tem potencial de mudar esse cenário ao profissionalizar a cadeia e criar estruturas comunitárias de negócio que podem servir de porta de entrada para a formalização.
Sindicatos de trabalhadores rurais, cooperativas extrativistas e associações comunitárias do Pará e de estados vizinhos com presença da malva também entram no radar do programa como possíveis parceiros na replicação dos modelos-piloto previstos.
O que muda na prática
O projeto foi proposto pela Companhia Têxtil de Castanhal (CTC), empresa com 40 anos de atuação no Pará no trabalho com juta. Segundo o superintendente da área de Cadeias Agroindustriais e Defesa da Finep, Rodrigo Secioso, a cadeia da malva enfrenta hoje baixíssimo índice de tecnificação desde o plantio até o beneficiamento, e isso se traduz diretamente em prejuízo para o produtor.
O financiamento prevê ações concretas que afetam o dia a dia de quem trabalha na extração:
- Desenvolvimento de maquinário para colheita, quebra e separação de sementes, reduzindo o esforço físico e os riscos de acidentes hoje comuns no processo manual feito dentro d’água;
- Infraestrutura digital para gestão do cultivo, o que permite rastreabilidade e acesso a mercados mais exigentes, inclusive o internacional — a fibra ganhou visibilidade global quando a atriz Alice Carvalho usou, na cerimônia do Oscar nos Estados Unidos, um vestido feito pela CTC com combinação de juta e malva;
- Consolidação de negócios comunitários piloto com possibilidade de replicação em outros territórios amazônicos;
- Avaliação de mecanismos financeiros para produção em escala, o que pode viabilizar acesso a crédito rural formal por parte das famílias produtoras;
- Aprimoramento genético das espécies, visando obter uma fibra mais nobre e de maior valor comercial, capaz de competir no mercado têxtil de maior valor agregado, e não apenas no segmento de sacarias e cordas.
O diretor de Inovação da Finep, Elias Ramos, destacou que “este tipo de apoio, em que o governo federal assume o risco da inovação” é justamente o que viabiliza projetos em territórios onde o setor privado sozinho não chegaria. Na prática, isso significa que o risco financeiro do processo de modernização não recai sobre as famílias ribeirinhas.
Leia Mais
O que fazer agora
Se você é extrativista de malva, membro de cooperativa rural, agente sindical ou liderança comunitária na Amazônia, veja os passos recomendados:
- Acesse o site da Finep (finep.gov.br) e localize os editais e chamadas abertas para cadeias agroindustriais na Amazônia;
- Procure o sindicato rural mais próximo e informe sobre o projeto — sindicatos podem atuar como interlocutores junto à CTC e à Finep para inclusão de novas comunidades nos projetos-piloto;
- Regularize sua situação como produtor rural junto ao CAR (Cadastro Ambiental Rural) e ao Pronaf, pois esses cadastros são pré-requisitos comuns para acesso a financiamentos e programas de formalização;
- Consulte o INSS sobre a categoria de Segurado Especial, que garante contribuição reduzida e acesso à aposentadoria rural para agricultores familiares e extrativistas, sem precisar pagar a alíquota cheia da tabela progressiva de 2026;
- Compartilhe esta informação com lideranças de associações ribeirinhas, pois o projeto prevê modelos comunitários replicáveis e o acesso depende de mobilização local.
Onde confirmar
- Finep — Financiadora de Estudos e Projetos: finep.gov.br | Área: Cadeias Agroindustriais e Defesa
- INSS — Segurado Especial (trabalhador rural): meu.inss.gov.br
- Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação: gov.br/mcti










Comentários
Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.
Ainda não há comentários nesta matéria.