Em julho de 2025, o Brasil saiu oficialmente do Mapa da Fome da ONU — uma conquista que não acontecia desde 2014 e que foi comemorada como marco histórico por governos, especialistas e organismos internacionais. Um ano depois, a pergunta que muita gente evita fazer em voz alta ainda está ali: isso significa que ninguém mais passa fome no Brasil?
A resposta, como quase tudo nessa área, é mais complexa do que o título da notícia sugere.
O que significa, de fato, “sair do Mapa da Fome”
O Mapa da Fome é elaborado pela FAO, agência da ONU para alimentação e agricultura. Um país entra nesse índice quando mais de 2,5% da sua população enfrenta subalimentação crônica, ou seja, não consome calorias suficientes para manter uma vida saudável de forma sistemática.
O Brasil cruzou esse limiar. Os dados oficiais indicam que a proporção de brasileiros em situação de subalimentação caiu abaixo dessa marca, puxada principalmente pela expansão de programas de transferência de renda, aumento do salário mínimo real e retomada do emprego formal.
Isso é real. Isso importa. E isso representa milhões de vidas transformadas.
O número que o título não conta
Mas aqui está o dado que surpreende: sair do Mapa da Fome não é o mesmo que erradicar a fome.
Segundo levantamentos da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar (Rede PENSSAN), cerca de 8 milhões de brasileiros ainda viviam em situação de insegurança alimentar grave em 2024, o nível mais crítico da escala, que inclui passar dias sem comer. Esse número caiu significativamente nos últimos anos, mas está longe de zero.
A diferença está na metodologia. O índice da FAO usa médias populacionais e projeções estatísticas nacionais. Já pesquisas domiciliares como a da Rede PENSSAN entram na casa das famílias e perguntam diretamente: você deixou de comer por falta de dinheiro? Os resultados revelam uma realidade que os agregados nacionais tendem a suavizar.
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Quem ainda passa fome no Brasil e onde
O perfil de quem ainda enfrenta insegurança alimentar grave no país é específico e persistente: mulheres chefes de família, moradores de periferias urbanas do Norte e Nordeste, populações indígenas e quilombolas, e trabalhadores informais sem renda estável.
Em estados como Maranhão, Pará e Amazonas, a proporção de domicílios com algum grau de insegurança alimentar ainda supera 50%, segundo dados regionais da PENSSAN. O Brasil médio saiu do mapa. O Brasil desigual ainda não.
Por que a conquista ainda importa, e muito
Reconhecer os limites da vitória não é diminuí-la. Sair do Mapa da Fome representa uma mudança estrutural real: mais famílias com renda, mais crianças na escola com alimentação garantida, mais adultos com acesso regular a refeições.
O Bolsa Família ampliado, o aumento do salário mínimo acima da inflação e a retomada do mercado de trabalho formal foram os três pilares identificados pelos pesquisadores como responsáveis pela virada. Políticas públicas funcionaram, e os números provam isso.
O risco agora é outro: usar o título de “fora do mapa” como ponto de chegada, quando ele deveria ser tratado como ponto de partida para a próxima meta, a erradicação completa da fome, compromisso que o Brasil assumiu nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU até 2030.
O que vem pela frente
Com quatro anos pela frente até o prazo dos ODS, especialistas alertam que manter o Brasil fora do Mapa da Fome exige continuidade de políticas, não apenas comemoração. Qualquer reversão nos programas de renda ou alta brusca no preço dos alimentos, como o que aconteceu com o feijão e o arroz em 2024, pode recolocar famílias vulneráveis na estatística.
A saída do mapa foi uma vitória do Brasil. Mas a fome que ainda existe não some porque os índices mudaram de nome. Um ano após a saída do Mapa da Fome, os desafios seguem concretos e urgentes para milhões de brasileiros.
Fontes consultadas: https://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2026-07/brasil-completa-1-ano-fora-do-mapa-da-fome-mas-desafios-persistem










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