Um comprimido tomado uma vez ao dia quase dobrou a sobrevida de pacientes com câncer de pâncreas metastático — um dos mais letais e difíceis de tratar. Os resultados do estudo de fase 3, apresentados no maior congresso de oncologia do mundo em 1º de junho de 2026, arrancaram uma rara ovação de pé de uma plateia formada por especialistas treinados para o ceticismo.
O que aconteceu em Chicago
A American Society of Clinical Oncology (ASCO) reúne anualmente os principais oncologistas clínicos do planeta. Aplausos de pé são exceção, não regra. Quando os dados do estudo RASolute 302 apareceram na tela da sessão plenária, a plateia se levantou.
O medicamento em questão é o daraxonrasib, desenvolvido pela empresa americana Revolution Medicines. O ensaio clínico seguiu o padrão mais rigoroso da medicina: um ensaio randomizado de fase 3, com 500 pacientes divididos por sorteio em dois grupos. Um grupo recebeu o comprimido; o outro, quimioterapia convencional. Nem médicos nem pacientes escolheram quem receberia qual tratamento — o formato existe justamente para eliminar vieses e garantir que os resultados reflitam o efeito real do medicamento.
Os resultados foram considerados finais. Não há análise pendente.
No grupo de pacientes com a mutação RAS G12 — a mais comum no câncer de pâncreas —, a sobrevida mediana foi de 13,2 meses com o comprimido contra 6,6 meses com a quimioterapia. Isso significa que metade dos pacientes viveu mais de 13 meses com o daraxonrasib, frente a pouco mais de 6 meses com o tratamento convencional.
O tempo até a doença voltar a avançar também dobrou: 7,3 meses contra 3,5 meses com a quimioterapia. E 31% dos pacientes que tomaram o comprimido apresentaram redução mensurável do tumor.
Um dado de segurança chamou atenção especial: apenas 1,2% dos pacientes precisaram interromper o tratamento por efeitos colaterais, contra 11,2% no grupo da quimioterapia. A conclusão dos pesquisadores, publicada no Journal of Clinical Oncology, foi direta: o daraxonrasib deve se tornar o novo padrão de tratamento para pacientes com câncer de pâncreas metastático sem resposta à quimioterapia.
Quem pode ser afetado
O câncer de pâncreas é uma das formas mais agressivas de câncer, com diagnóstico frequentemente tardio e opções terapêuticas historicamente limitadas. O daraxonrasib foi testado especificamente em pacientes com câncer de pâncreas metastático — ou seja, aqueles em que a doença já se espalhou para outros órgãos — e que não responderam à quimioterapia convencional. O perfil mais beneficiado é o de pacientes portadores da mutação RAS G12, presente na grande maioria dos casos. Familiares de pessoas diagnosticadas com câncer de pâncreas e profissionais de saúde da oncologia também devem acompanhar os desdobramentos desse resultado.
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O que muda na prática
Por ora, o daraxonrasib não está disponível comercialmente no Brasil. O medicamento ainda precisa passar pelo processo de aprovação regulatória — nos Estados Unidos, pela FDA, e no Brasil, pela Anvisa — antes de poder ser prescrito fora de ensaios clínicos. Esse processo pode levar meses ou anos. O resultado da fase 3, publicado no Journal of Clinical Oncology e apresentado na ASCO, é o passo necessário para iniciar esse rito regulatório.
Nos sistemas públicos de saúde, como o SUS, a incorporação de novos medicamentos oncológicos passa ainda pela avaliação da CONITEC (Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS), o que adiciona uma etapa ao caminho até o paciente de menor renda.
O que fazer agora
- Se você ou alguém próximo tem diagnóstico de câncer de pâncreas metastático, pergunte ao oncologista responsável sobre o daraxonrasib e se há ensaios clínicos com o medicamento abertos no Brasil.
- Consulte o Registro Brasileiro de Ensaios Clínicos (REBEC) para verificar estudos em andamento no país que possam oferecer acesso ao tratamento antes da aprovação regulatória.
- Acompanhe o portal da Anvisa para saber quando um pedido de registro do daraxonrasib for protocolado no Brasil.
- Converse com o médico antes de qualquer decisão — não interrompa tratamentos em curso com base apenas nesta notícia.
- Acesse o estudo original para entender os critérios exatos de elegibilidade e os próximos passos regulatórios.
Onde confirmar
- Anvisa (anvisa.gov.br) — acompanhamento de registros de medicamentos oncológicos no Brasil
- REBEC (ensaiosclinicos.gov.br) — busca por ensaios clínicos abertos com daraxonrasib
- Journal of Clinical Oncology — publicação científica onde o estudo RASolute 302 foi divulgado
- ASCO (asco.org) — apresentações e resumos da conferência de junho de 2026










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