PIX vs Zelle pagamentos
Foto: Marcello Casal jr / Agência Brasil

Nas últimas semanas, o Zelle viralizou nas redes sociais brasileiras. Vídeos de americanos comemorando a “novidade” de transferir dinheiro pelo celular em segundos geraram uma reação quase unânime no Brasil: “Mas isso não é o PIX?” A comparação, que começou nos comentários, ganhou força suficiente para render debate sério — e os números mostram que o espanto brasileiro tem fundamento.

continua depois da publicidade

O que é o Zelle e por que ele virou assunto

O Zelle é um sistema de pagamento instantâneo americano operado por uma rede de grandes bancos dos EUA, como Bank of America, JPMorgan Chase e Wells Fargo. Ele permite transferências entre contas bancárias em questão de minutos, usando apenas e-mail ou número de telefone como chave de identificação. Para o padrão americano, onde cheques ainda circulam com naturalidade e transferências bancárias tradicionais podem levar dias, o serviço é de fato uma evolução significativa.

O problema é que, comparado ao PIX, o Zelle parece uma versão beta de algo que o Brasil já consolidou.

continua depois da publicidade

PIX x Zelle: o que cada um entrega na prática

Disponibilidade: O PIX funciona 24 horas por dia, 7 dias por semana, incluindo feriados. O Zelle também opera continuamente, mas a liquidação efetiva da transferência pode depender do banco receptor — em alguns casos, o dinheiro só aparece no dia útil seguinte.

Quem pode usar: No Brasil, qualquer pessoa com CPF e conta em banco, fintech ou instituição de pagamento pode usar o PIX. Isso inclui contas em aplicativos como Nubank, PicPay e Mercado Pago. O Zelle exige que ambos os lados da transação — quem envia e quem recebe — estejam cadastrados em bancos parceiros do serviço. Quem tem conta em uma cooperativa de crédito menor ou numa fintech americana pode simplesmente ficar de fora.

Custo: Os dois sistemas são gratuitos para pessoas físicas. No entanto, para empresas, o Zelle ainda tem limitações de integração e nem todos os bancos oferecem a funcionalidade corporativa. O PIX para empresas já está amplamente estabelecido, com cobranças automatizadas, QR Code dinâmico e integração com sistemas de gestão.

Limite de valor: O Zelle impõe limites que variam por banco. No Bank of America, por exemplo, o teto diário gira em torno de US$ 3.500 para pessoas físicas. O PIX também tem limites, mas eles são definidos pelo próprio usuário em conjunto com o banco, com tetos mais flexíveis e ajustáveis.

Chave de pagamento: O PIX permite usar CPF, CNPJ, e-mail, telefone ou uma chave aleatória gerada pelo sistema. O Zelle aceita apenas e-mail ou telefone, o que parece simples, mas reduz as opções de privacidade do usuário.

Por que o PIX chegou tão longe tão rápido

Lançado pelo Banco Central do Brasil em novembro de 2020, o PIX foi obrigatório para todas as instituições financeiras com mais de 500 mil clientes desde o início. Essa imposição regulatória foi decisiva: em vez de depender da adesão voluntária de bancos, o sistema nasceu com escala nacional. Em menos de dois anos, superou o número de transações feitas por TED e DOC combinados.

Hoje, o PIX já é usado por mais de 150 milhões de pessoas e responde por uma fatia crescente do consumo no varejo, pagamento de contas, transferências entre empresas e até recebimento de benefícios sociais.

Leia Mais

O Zelle, por sua vez, foi criado em 2017 por um consórcio de bancos privados, sem regulação federal obrigatória. O resultado é uma adoção fragmentada: funciona bem entre clientes dos grandes bancos, mas deixa lacunas relevantes.

O que o Brasil pode aprender — e o que ainda falta

Apesar da vantagem clara, o PIX também enfrenta desafios. Golpes como o “PIX errado” e fraudes por engenharia social cresceram junto com a popularização do sistema. O Banco Central tem aprimorado mecanismos de devolução e rastreamento, mas o problema ainda é real.

O Zelle, por outro lado, enfrenta críticas semelhantes nos EUA, com o Congresso americano pressionando os bancos por mais proteção ao consumidor em casos de fraude.

No fim das contas, o Brasil construiu algo raro: uma infraestrutura financeira que funciona melhor do que a de uma das maiores economias do mundo. Desta vez, o país não estava atrasado — estava na frente.

José Carlos Sanchez Jr.

José Carlos Sanchez Jr.

Jornalista dedicado a explicar decisões do Estado, traduzir políticas públicas e orientar cidadãos sobre como acessar seus direitos e benefícios sociais.

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.

Ainda não há comentários nesta matéria.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Rolar para cima