Há 30 anos, o Brasil começou a substituir cédulas de papel e contagens manuais por uma máquina criada para reduzir fraudes e interferências humanas na apuração. Três décadas depois, a urna eletrônica continua no centro das eleições brasileiras, mas passou também a ocupar outro lugar na política: tornou-se alvo de uma campanha de desinformação que, em 2022, integrou a estratégia de contestação do resultado eleitoral e, segundo decisões posteriores do STF, esteve conectada à tentativa de ruptura institucional.
Às vésperas do primeiro turno de 2026, marcado para 4 de outubro, mais de 158 milhões de brasileiros estão aptos a votar novamente pelo sistema eletrônico. O equipamento que hoje integra a rotina eleitoral nasceu, porém, de um processo mais longo de informatização e de um problema concreto: reduzir as possibilidades de fraude existentes quando cédulas, urnas de lona, contagem de votos e preenchimento dos mapas de resultados dependiam diretamente da intervenção humana.
Para entender como uma tecnologia desenvolvida para aumentar a segurança da votação acabou no centro da maior crise institucional brasileira desde a redemocratização, é preciso voltar a um período em que fraudar uma eleição podia significar inserir votos antes da abertura de uma urna, substituir cédulas ou alterar números durante a própria apuração.
A urna nasceu de um problema anterior à tecnologia
A ideia de mecanizar o voto brasileiro é anterior à existência dos computadores modernos. O Código Eleitoral de 1932 já previa o uso de uma “máquina de votar”, desde que fosse preservado o sigilo. A infraestrutura que permitiria transformar a previsão em realidade, entretanto, só começou a surgir décadas depois.
Entre 1985 e 1986, a Justiça Eleitoral criou um cadastro nacional informatizado de eleitores. Até então, a inexistência de uma base unificada permitia situações como registros eleitorais em mais de uma localidade. Em 1994, o TSE já utilizava sua própria estrutura computacional para processar os resultados das eleições gerais, embora o voto continuasse sendo registrado em papel.
Foi justamente a eleição de 1994 que expôs de maneira mais aguda os limites do modelo. No Rio de Janeiro, irregularidades na votação e na apuração levaram à anulação das eleições para deputado federal e estadual. Entre as fraudes documentadas estava a chamada “urna grávida”, prática em que cédulas preenchidas eram colocadas dentro da urna antes mesmo do início da votação.
Havia também o mapismo. Depois da contagem manual, os resultados eram transferidos para mapas eleitorais. Nessa etapa, votos de candidatos de um mesmo partido podiam ser redistribuídos artificialmente sem alterar o total geral da legenda. Uma votação de 50 votos para cada um de dois candidatos, por exemplo, poderia ser registrada como 80 para um e 20 para outro.
Outras modalidades exploravam diferentes etapas da eleição. No chamado “voto formiguinha”, uma cédula oficial retirada da seção podia ser substituída por outro papel e levada para fora do local de votação. Depois de preenchida por quem organizava a fraude, a cédula retornava com outro eleitor, enquanto uma nova cédula em branco era retirada para repetir o processo. Também existiam roubo e substituição de urnas e casos de utilização de documentos falsos para votar mais de uma vez.
O episódio de 1994 não criou sozinho a informatização das eleições, que já estava em curso, mas acelerou a busca por um sistema capaz de reduzir a presença humana justamente nas etapas em que as fraudes eram praticadas.
Em setembro de 1995, a Lei 9.100 estabeleceu que o Tribunal Superior Eleitoral poderia autorizar tribunais regionais a utilizar sistemas eletrônicos de votação e apuração nas eleições municipais do ano seguinte. A legislação previa que o eleitor digitasse o número da candidatura e visualizasse na tela informações como nome, partido e, nas eleições majoritárias, fotografia.
A Justiça Eleitoral reuniu então técnicos e especialistas para desenvolver o equipamento. O projeto contou com a participação de profissionais ligados à própria Justiça Eleitoral e a instituições públicas e de pesquisa. A construção da urna foi parte de um projeto estatal de informatização que procurava combinar simplicidade operacional com a capacidade de realizar eleições em um país de dimensões continentais.
Em 1996, mais de 32 milhões de eleitores, cerca de um terço do eleitorado brasileiro da época, utilizaram aproximadamente 70 mil urnas eletrônicas em 57 cidades. Em 1998, a utilização foi ampliada e, nas eleições municipais de 2000, todo o eleitorado brasileiro passou a votar pelo sistema eletrônico.

A transformação não eliminou a necessidade de fiscalização. Ao contrário, o avanço tecnológico passou a exigir novas formas de auditoria. O sistema utilizado em 2026 está submetido, segundo o TSE, a cerca de 40 oportunidades de fiscalização, que incluem inspeção dos códigos-fonte, Teste Público de Segurança, verificação da integridade dos sistemas e testes realizados paralelamente à votação.
Partidos políticos, universidades, Polícia Federal, Sociedade Brasileira de Computação e outras instituições estão entre as entidades autorizadas a acompanhar diferentes etapas. O problema político que surgiria anos depois, porém, não dependeria da descoberta de uma fraude concreta no sistema.
Leia Mais
-
Qual Dívida Pagar Primeiro? O Método Certo para Sair do Vermelho Mais Rápido em 2026
-
Restituição do IR 2026: Como Consultar, Em Qual Lote Você Está e O Que Fazer se Não Cair
-
Reserva de Emergência com Salário Baixo: Como Começar do Zero e Onde Guardar
-
Portabilidade de Salário 2026: Como Receber no Banco que Você Escolher (Sem Pagar Nada)
Quando a urna deixou de ser apenas uma tecnologia eleitoral
A eleição de 2018 marcou uma mudança na relação entre a urna eletrônica e o debate político brasileiro. No dia do primeiro turno, o então deputado federal Fernando Francischini fez uma transmissão ao vivo nas redes sociais afirmando que as urnas estavam fraudadas e que os equipamentos não aceitariam votos no candidato Jair Bolsonaro. As afirmações eram falsas.

Os vídeos utilizados como suposta prova mostravam eleitores tentando digitar o número de candidato à Presidência quando a urna ainda estava na etapa destinada à escolha do governador.
A transmissão alcançou milhões de visualizações. Três anos depois, em outubro de 2021, o TSE cassou, por seis votos a um, o mandato de deputado estadual conquistado por Francischini e declarou sua inelegibilidade por abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação. A própria Corte classificou a decisão como um precedente inédito no enfrentamento à desinformação contra o sistema eletrônico de votação.
Entre uma eleição e outra, a Justiça Eleitoral passou a tratar a desinformação como um problema institucional. Em 2019, criou um programa específico para enfrentar conteúdos falsos relacionados às eleições, iniciativa que posteriormente se tornou permanente.
A escalada ganhou outra dimensão a partir de 2021, quando o então presidente Jair Bolsonaro intensificou questionamentos públicos sobre a segurança das urnas e passou a defender mudanças no sistema eleitoral. O TSE registrou naquele ano uma sequência de acusações contra a votação eletrônica que, segundo a Corte, não foram acompanhadas de demonstração de fraude.
A dúvida sobre as urnas deixava, naquele momento, de aparecer apenas como reação a episódios pontuais durante uma eleição. Passava a ser construída antes do voto. Essa característica ficou explícita em 18 de julho de 2022, quando Bolsonaro reuniu embaixadores estrangeiros no Palácio da Alvorada para apresentar questionamentos sobre a Justiça Eleitoral e sobre o funcionamento das urnas, a menos de três meses do primeiro turno.
No ano seguinte, por cinco votos a dois, o TSE concluiu que a reunião configurou abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação e declarou Bolsonaro inelegível por oito anos, contados a partir da eleição de 2022. Os dois votos divergentes não reconheceram os fundamentos necessários para aplicar a mesma sanção.
A decisão mostrou que a contestação das urnas já era tratada juridicamente não apenas como debate sobre uma tecnologia, mas como comportamento capaz de afetar a legitimidade do próprio processo eleitoral.
2022: da contestação da eleição à trama golpista
Bolsonaro foi derrotado por Luiz Inácio Lula da Silva no segundo turno de 30 de outubro de 2022 em uma das eleições mais disputadas da história da democracia. Nos meses e anos seguintes, investigações da Polícia Federal, denúncias da Procuradoria-Geral da República e julgamentos no Supremo Tribunal Federal reconstruíram uma articulação mais ampla para impedir a alternância de poder.
Em setembro de 2025, a Primeira Turma do STF condenou, por quatro votos a um, os oito integrantes do chamado Núcleo 1 da tentativa de golpe de Estado. Entre os condenados estavam Bolsonaro e integrantes do primeiro escalão de seu governo. O tribunal considerou comprovada a existência de uma organização que atuou de forma progressiva para impedir o funcionamento regular dos Poderes e a posse do governo eleito. Bolsonaro foi condenado a 27 anos e três meses de prisão; as defesas dos réus contestaram as acusações ao longo do processo.
Ao analisar o caso, a maioria do colegiado entendeu que os ataques ao sistema eleitoral faziam parte dessa trajetória. No julgamento, a ministra Cármen Lúcia afirmou que a organização utilizou uma estrutura de comunicação digital para propagar ataques às urnas e produzir uma crise de confiança que serviria de ambiente para a ruptura institucional. A conexão entre desinformação eleitoral e tentativa de golpe apareceu de maneira ainda mais direta no julgamento do chamado Núcleo 4.
Formado por militares da ativa e da reserva, um agente da Polícia Federal e o então presidente do Instituto Voto Legal, o grupo foi acusado pela PGR de produzir e disseminar informações falsas sobre a confiabilidade das urnas, atacar autoridades e alimentar a mobilização necessária para a tentativa de ruptura.
Em outubro de 2025, a Primeira Turma do STF condenou os sete réus do núcleo por quatro votos a um. Seis foram condenados pelos cinco crimes apontados pela acusação; o sétimo recebeu condenação por parte deles. O ministro Luiz Fux divergiu da maioria por considerar insuficientes as provas para determinadas condenações.
Segundo a PGR, o grupo atuava de forma coordenada com o núcleo central da organização para disseminar notícias falsas sobre o sistema eleitoral, atacar instituições e aumentar a tensão entre apoiadores. O objetivo, segundo a acusação acolhida pela maioria do STF, era preparar o ambiente político e social para impedir a consolidação do resultado eleitoral.
A trajetória judicial posterior a 2022 alterou, portanto, o significado histórico dos ataques às urnas. Afirmações que durante a campanha apareciam publicamente como suspeitas sobre uma tecnologia foram analisadas posteriormente dentro de um conjunto de ações destinadas a desacreditar a eleição e interromper a transferência de poder.
É importante destacar que nem toda crítica ao sistema eletrônico pode ser equiparada a uma ação golpista. Fiscalização, testes de segurança, investigação de vulnerabilidades e cobrança por transparência fazem parte do próprio modelo institucional adotado pela Justiça Eleitoral. A distinção estabelecida nos julgamentos esteve relacionada ao uso de informações falsas e à finalidade atribuída pelos tribunais às ações praticadas no contexto da tentativa de ruptura.
Trinta anos depois, a disputa continua
Em 2026, a urna chega à quarta década de existência sem que o debate sobre sua legitimidade tenha desaparecido. Levantamento do Projeto Confia, iniciativa do Pacto pela Democracia, analisou mais de 3 mil conteúdos relacionados às eleições de 2022 e 2024 e selecionou 716 mensagens para avaliação qualitativa aprofundada. Destas, 326 — mais de 45% — continham ataques relacionados diretamente ao funcionamento das urnas eletrônicas, segundo dados divulgados em maio.

As narrativas mapeadas pelo projeto frequentemente recorrem a elementos técnicos do próprio equipamento — teclas, mensagens exibidas na tela ou etapas da votação — para sugerir manipulações que os materiais analisados não demonstravam. A pesquisa identifica o desconhecimento sobre o funcionamento interno da urna como uma das condições exploradas por esse tipo de conteúdo.
Ao mesmo tempo, o ciclo eleitoral de 2026 mantém mecanismos de fiscalização desenvolvidos ao longo das últimas décadas. Os códigos-fonte dos sistemas foram disponibilizados antecipadamente para inspeção de entidades fiscalizadoras, a Sociedade Brasileira de Computação realizou uma dessas inspeções e o Teste Público de Segurança concluído neste ano não identificou achados que comprometessem o sigilo ou a integridade do voto, segundo o TSE. No dia da eleição, os tribunais regionais também devem realizar testes de integridade por amostragem.
O percurso iniciado três décadas atrás contém uma inversão histórica. Na década de 1990, o desafio institucional era diminuir os espaços em que pessoas poderiam alterar fisicamente votos, cédulas e mapas de apuração. Com o avanço da informatização, parte da disputa deslocou-se do interior das mesas apuradoras para o terreno da confiança pública no processo.
A trajetória da urna também mostra que uma tecnologia eleitoral não se sustenta apenas pelo funcionamento de seus componentes. Sua legitimidade depende de auditoria permanente, transparência, fiscalização independente e capacidade das instituições de responder a falhas quando elas são identificadas. Submeter o sistema a escrutínio faz parte dessa construção; fabricar evidências ou difundir acusações falsas para desacreditar previamente um resultado pertence a outra dimensão do conflito democrático que não deve ser compactuada por nenhuma das partes.
Trinta anos depois da primeira votação eletrônica, o problema original permanece reconhecível sob outra forma. A urna foi desenvolvida para reduzir a possibilidade de que intermediários alterassem a vontade registrada pelo eleitor entre o momento do voto e a apuração. Em 2022, segundo as decisões posteriores do STF, a tentativa de ruptura buscou atingir essa mesma soberania por outro caminho: não pela adulteração de cédulas dentro de uma urna, mas pela erosão da confiança no resultado produzido por ela. E o resultado dessa desinformação, ainda é sentido até hoje.










Comentários
Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.
Ainda não há comentários nesta matéria.