Entre 28 de outubro de 2024 e 15 de agosto de 2026, o Brasil registrou 354 episódios de violência política, alta de 18,4% em relação ao período pré-eleitoral anterior e média de um caso a cada 44 horas. Os dados foram divulgados nesta quarta-feira (30) pela Terra de Direitos e pela Justiça Global, que monitoraram notícias, registros oficiais e denúncias públicas ao longo de 22 meses. Quase todos os episódios, 96,3%, atingiram pessoas que já exerciam mandato ou cargo público.
O número recorde, no entanto, revela apenas uma parte do fenômeno. O perfil das vítimas mostra que a violência política não se distribui de maneira uniforme. Mulheres responderam por 50,6% dos episódios, mesmo ocupando cerca de 18% das cadeiras legislativas do país. Representantes de PT e PSOL, somados, concentraram 30,23% das vítimas. Entre os vereadores eleitos pelo PSOL em 2024, 23 dos 80 apareceram no levantamento como vítimas de algum tipo de violência.
A desigualdade se torna ainda maior quando gênero e raça são observados conjuntamente. Mulheres negras representam 22,8% das vítimas identificadas, mas respondem por mais da metade dos episódios de violência repetida. Das 32 pessoas que sofreram ataques em mais de uma ocasião, 23 eram mulheres.
Os números ajudam a deslocar a discussão da ideia de que violência política seria apenas consequência de campanhas eleitorais acirradas. O período analisado termina antes do início oficial da campanha de 2026. Somente em 2025, ano sem eleição, foram registrados 225 casos. Para as organizações responsáveis pela pesquisa, a violência passou a integrar o cotidiano do exercício de mandatos, particularmente nos municípios.
É também nesse recorte que aparecem sinais de uma violência explicitamente ideológica. As quatro ameaças identificadas pelas pesquisadoras como assinadas por grupos ou perfis declaradamente neonazistas ou supremacistas tiveram como alvo mulheres pretas: a prefeita Professora Nilda, no Rio Grande do Norte, e as vereadoras Alice Carvalho, no Rio Grande do Sul, Vivi Reis, no Pará, e Adriana Gerônimo, no Ceará.
Em um dos casos, a renúncia ao mandato foi apresentada como condição para interromper os ataques. Em outro, o remetente se identificou como integrante de um grupo denominado “Nova Ordem Ariana”. As mensagens incluíam ameaças de morte e violência sexual. Para Terra de Direitos e Justiça Global, são os episódios da base que mais se aproximam de um padrão organizado de violência racial.

Mulheres de esquerda aparecem entre os principais alvos
A concentração de casos em representantes de esquerda também aparece quando o levantamento atual é comparado com outras bases.
No Monitor de Violência Política de Gênero e Raça 2025, elaborado pelo Instituto Alziras em parceria institucional com o Observatório Nacional da Mulher na Política da Câmara dos Deputados, foram analisadas 62 ações penais eleitorais instauradas entre 2021 e 2025.
Entre as 69 vítimas identificadas nesses processos, o PT aparecia com 16 mulheres, ou 23% do total. PSOL e PSD tinham sete cada, enquanto o PL aparecia com cinco. O próprio relatório ressalva que a violência alcança partidos de diferentes espectros, inclusive legendas conservadoras, mas afirma que mulheres negras, indígenas, LGBTQIA+ e defensoras de pautas feministas, antirracistas e de direitos humanos tendiam a sofrer agressões mais graves e intensas.
O perfil dos acusados também oferece elementos para compreender a dimensão política dos ataques, embora não permita atribuir todo o fenômeno a um único campo ideológico.
Dos 73 acusados nos processos analisados pelo Monitor, 86% eram homens e 60% ocupavam cargos públicos. Entre aqueles cuja filiação partidária pôde ser identificada, o PL reunia a maior parcela, com 11%, seguido por União Brasil e MDB, com 7% cada. O estudo identifica concentração maior entre partidos de centro-direita e direita.
Os dados mostram que o avanço da extrema direita e do conservadorismo foi um dos responsáveis pelo aumento da violência contra mulheres que ocupam cargos públicos. Há, inclusive, episódios ligados a disputas locais, agentes estatais e crime organizado. Na nova pesquisa da Terra de Direitos, 26 casos, equivalentes a 7,3% do total, apresentavam indícios de envolvimento de facções ou organizações criminosas.
Ao mesmo tempo, existe evidência documental de que uma parcela dos ataques utiliza linguagem e referências associadas ao supremacismo racial, à misoginia e à hostilidade contra pessoas LGBTQIA+.
Uma revisão acadêmica publicada em Ciência & Saúde Coletiva, que examinou 30 estudos nacionais e internacionais sobre violência política de gênero, relaciona os ataques contra mulheres e pessoas LGBTQIA+ ao uso de pânicos morais em discursos da extrema direita. Segundo os autores, a defesa de uma ordem cisheteronormativa e da família tradicional pode funcionar como mecanismo de legitimação e naturalização da violência contra grupos apresentados como ameaça a esses valores.
Ainda que a pesquisa não estabeleça que todo conservadorismo produza violência, ela identifica uma sobreposição entre determinadas agendas ultraconservadoras, campanhas contra feminismo e direitos LGBTQIA+ e formas de deslegitimação de mulheres que entram em espaços historicamente ocupados por homens. É nesse ponto que os dados recentes ganham significado político.

As mulheres são quase 53% do eleitorado brasileiro, mas ocupam apenas 18% das cadeiras do Congresso. Nas eleições de 2026, elas representam 34,85% das candidaturas registradas no país. A presença feminina cresce, mas continua muito distante de sua participação na população eleitoral. A violência funciona, nesse contexto, não apenas como agressão contra uma pessoa, mas como custo adicional para participar da política.

A repetição dos ataques
A base preliminar divulgada nesta semana não identifica publicamente todas as 32 pessoas atingidas repetidamente, o que impede construir um ranking seguro das parlamentares mais atacadas no período. Casos públicos, porém, mostram como essa reincidência funciona.
A deputada federal Talíria Petrone (PSOL-RJ) informou em agosto que havia recebido pela quarta vez em poucos meses ameaças contra ela e familiares. Em ofício encaminhado ao Ministério da Justiça, a parlamentar mencionou ao menos 15 registros feitos junto à Polícia Federal ao longo dos anos. As mensagens mais recentes incluíam ameaças de morte, violência sexual e referências racistas, além da divulgação de endereços da parlamentar e de seus familiares.
A vereadora Benny Briolly (PSOL-RJ) também aparece há anos em levantamentos e denúncias sobre violência política. Em maio de 2026, foi agredida fisicamente durante uma manifestação em Niterói e precisou ser hospitalizada. Briolly já havia sido incluída no Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos devido a ameaças anteriores contra sua vida.
Os casos individuais ajudam a explicar outro dado da pesquisa da Terra de Direitos. Embora os homens sejam maioria entre as vítimas de agressões físicas, atentados e assassinatos, as mulheres predominam nas ameaças e ofensas. Todos os 31 registros de ameaça de violência sexual e os 67 episódios com conotação sexual ou comentários sobre corpo e aparência tiveram mulheres como vítimas. A violência, portanto, muda de forma conforme muda o alvo.
Quando dirigida às mulheres, parte relevante dos ataques procura desqualificar não apenas decisões ou posições políticas, mas sua presença naquele espaço. Sexualidade, corpo, raça, identidade de gênero e vida familiar tornam-se instrumentos de intimidação.
Essa característica aparece também em episódios praticados dentro das próprias instituições. Em 64 dos 354 registros, o agressor ocupava mandato ou cargo público. Somados policiais e outros agentes estatais, representantes do Estado aparecem em 29,9% dos episódios. Em 52 casos, a agressão ocorreu dentro do próprio ambiente de trabalho parlamentar, como plenários e comissões.
A lei existe, mas a punição ainda é exceção
Desde 2021, o Brasil possui legislação específica para enfrentar a violência política contra as mulheres. A Lei 14.192 define como violência política ações destinadas a impedir, obstaculizar ou restringir direitos políticos femininos. O Código Eleitoral passou também a prever pena de um a quatro anos de prisão para quem assediar, constranger, humilhar, perseguir ou ameaçar candidata ou detentora de mandato utilizando discriminação relacionada à condição de mulher, cor, raça ou etnia.
A existência da lei, entretanto, ainda contrasta com o nível de responsabilização. Dos 354 episódios identificados no levantamento mais recente, 300 tiveram algum tipo de denúncia formal ou pública. Apenas 46, equivalentes a 13%, possuíam investigação judicial ou policial em curso, e somente nove — 2,5% do total — haviam resultado em punição efetiva.
Um levantamento separado do Instituto Alziras encontrou gargalo semelhante. De 245 representações por violência política de gênero acompanhadas pelo grupo do Ministério Público Federal, apenas 28, ou 11%, haviam sido convertidas em ação penal eleitoral. Entre 99 inquéritos policiais mapeados, 30% estavam arquivados.
Nas últimas semanas, o TSE e a Procuradoria-Geral Eleitoral anunciaram novo protocolo para prevenção, denúncia e acolhimento de casos de violência política contra mulheres. Em março, um grupo de deputadas também apresentou o PL 1.440/2026, que propõe ampliar a Lei 14.192 para tratar expressamente de violência política de gênero e raça, inclusive em ambientes digitais.
Para Gisele Barbieri, coordenadora de incidência política da Terra de Direitos, a baixa responsabilização exige reação institucional. “Precisamos de respostas urgentes para esses crimes”, afirmou ao divulgar os resultados, defendendo aplicação mais efetiva da legislação existente e proteção que alcance também mulheres negras, transexuais e travestis.
É importante destacar que o levantamento não cobre toda a violência política ocorrida no país: ele depende do monitoramento de notícias, registros oficiais e denúncias públicas. Casos que não chegam à imprensa nem aos canais acompanhados podem ficar fora da base. Por isso, os números servem principalmente para identificar tendências e padrões documentados, e não necessariamente a dimensão absoluta do fenômeno.
Ainda assim, a série histórica acumulada desde 2016 já soma 1.937 episódios. O crescimento dos registros ocorre justamente quando mulheres, pessoas negras e representantes de grupos historicamente sub-representados ampliam sua presença nas disputas institucionais — e quando movimentos ultraconservadores transformaram gênero, raça e direitos LGBTQIA+ em temas centrais da disputa política.
Dessa forma, os dados permitem identificar quem paga um preço desproporcional por ocupar esses espaços: mulheres, especialmente negras, representantes locais e integrantes de partidos de esquerda. Em uma democracia que ainda mantém mulheres longe da paridade nos cargos eletivos, a ameaça não termina quando uma eleição acaba. Para parte dessas representantes, ela acompanha o próprio exercício do mandato.
Como apuramos: esta reportagem cruzou dados da Terra de Direitos e Justiça Global sobre violência política no período pré-eleitoral de 2024 a 2026 com informações do Monitor de Violência Política de Gênero e Raça, produzido pelo Instituto Alziras em parceria com o Observatório Nacional da Mulher na Política da Câmara dos Deputados. Também foram consultados dados e documentos do TSE, legislação federal, registros públicos de casos envolvendo parlamentares e estudos acadêmicos sobre violência política de gênero, raça e extremismo.




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